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Janela do Caipora

Era uma goiabeira seca, retorcida e cinzenta. O capim ao redor estava crescido e esturricado pelos meses sem chuva. Os olhos astutos do rapaz se concentravam nas penas coloridas do pequeno canário solitário, que cantava lindamente, empoleirado no galho mais alto da árvore ressequida no topo do monte. Suado, com uma mochila cheia de biscoitos, uma garrafa de alumínio amassada e galochas grandes para os seus pés, o menino estava agachado no mato, observando. 

Silenciosamente, soltou uma alça da mochila e tateou algo amarrado na lateral da bolsa. Era uma arapuca formosa, dessas que vendem na cidade, lixada e envernizada, feita de bambu e eucalipto, para não falar do elástico afiado que abaixava o alçapão assim que um pássaro se aventurasse a pousar no poleiro. Quando desfez o laço, o rapaz se descuidou e a gaiola despencou do alto, fazendo um estardalhaço ao cair no chão. O canário voou e o vento assoprou o capim como quem acorda assustado de um cochilo após o almoço. 

O rapaz teve um calafrio ao notar algo por perto. “Um bicho escondido no mato?”, pensou. Jurou vê-lo se movendo adiante, vindo espia-lo. Novamente, ouviu um barulho — parecia grande. Assustado, o rapaz correu morro abaixo sem notar que a mochila havia caído. Precisava fugir, mas não se preocupou com o caminho e seus olhos se cegaram diante do capim de mais de dois metros, embora o medo fosse seu maior obstáculo. Sentiu um arrepio quando percebeu que o bicho se aproximava, ganindo desafinado. “É uma onça”, pensou, “ou o diabo”.

Ele não soube se rolou pelo pasto ou se o mundo que deu uma volta sobre ele, mas finalmente alcançou a várzea silenciosa e deixou o capinzal para trás. Os bois que pastavam lhe olharam com curiosidade ou desdém, ruminando. Ofegante, teve um novo sobressalto quando alguém o tocou no ombro. Deu um grito agudo e covarde que lembrou o som de um rádio velho mudando de estação. 

O camponês com a pele morena, arruinada pelo sol, olhou para ele com desconfiança, tirou o chapéu de palha para enxugar o suor e a sua cabeleireira cheia brilhou como fogo. “Era só um porco-do-mato”, falou o homem, indicando o capinzal com o queixo e o rapaz respirou aliviado. Apoiando-se em uma vara comprida, o homem convidou o rapaz a segui-lo.

Foram até um casebre, numa grota perto do rio. Com fome, o menino se lembrou do pacote colorido de biscoito que havia deixado na mochila, agora perdida no mato. O homem deu-lhe uma caneca d’água e acenou para que se sentasse. O rapaz obedeceu e matava a sede com um gole comprido, quando foi interrompido por um latido no quintal. Alguns cachorros descansavam por perto e, ao lado deles, estava a arapuca formosa, escangalhada. “Algum cão a trouxe para cá”, pensou o ingênuo rapaz. Ele foi ao quintal e pegou a pequena gaiola com entusiasmo. Avistou a goiabeira solitária no alto da montanha e mordeu os lábios, cobiçoso.  

“O que tem lá?” o camponês perguntou e o menino descreveu com afobação o pássaro que queria pegar. Pretendia exibi-lo na janela do seu apartamento e todos na cidade ouviriam o seu lindo canto. O homem apenas balançou a cabeça, intrigado. “Se ainda tiver medo, levo você lá”, ofereceu, despretensioso. 

Acanhado, o menino sentou-se no banco e bebeu mais água. Recostou na parede fresca e ouviu o som do riacho, experimentando a sensação prazerosa de alívio por ter se salvado do porco-do-mato. Descuidado, sua cabeça pendeu para o lado e ele adormeceu.

Despertou no escuro, sentindo o mundo balançar, e ergueu a fuça para ver a luz do dia. Seus pequenos olhos notaram que estava enjaulado e, além das grades de bambu que o cercavam, o mundo parecia ter crescido. O mais estranho, contudo, era testemunhar a sua alma espremendo-se num corpo diminuto, desconfortável, enquanto se equilibrava no poleiro da gaiola. Desorientado, tentou gritar, mas foi um silvo longo e delicado que emitiu da garganta. Olhou para o horizonte através das grades, viu a goiabeira seca e lembrou-se dela. Ele a desejava. Não se recordava por que, mas seu coração exultava por se aproximar dela.

Os galhos da árvore sem vida se estendiam para ele como braços que, em uma faísca de memória, achou que tivera um dia. Sua alma havia se acomodado, afinal. Deixado a poucos metros do tronco seco, ouviu o rangido do alçapão que o separava do céu azul se abrindo. Instintivamente, eriçou as asas, voou até a goiabeira e pousou no galho mais alto, exultante. O mundo ali de cima era soberbo e ele quis gritar para todos ouvirem como era belo o que via. De sua garganta nasceu o canto mais lindo, que fez o vento despertar, atrasado, fazendo o capim se curvar de melancolia.

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