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Pacto com Sereias

— Tem certeza que é isso o que quer, Camilo?

— Aqueles rubis serão meus, Emlyn!

— A ilha é guardada por uma tribo sanguinária.

Camilo riu com arrogância, estendendo os braços na direção de seu pequeno exército que embarcava no Correnteza. Emlyn coçou a barba, seus olhos cinzentos encarando o magistrado com preocupação.

— E as sereias daquela região farejam a ganância — disse, sério. — Malditas criaturas persuasivas.

— Levo o que há de mais letal para elas — respondeu Camilo, indicando um guerreiro ao lado.

O soldado esguio tinha um olhar adoentado, olheiras fundas e bochechas encovadas. Sua pele ressecada parecia prestes a rasgar sobre as fibras dos músculos. Camilo o puxou e exibiu com presunção as marcas gravadas no antebraço do rapaz; dois rasgos vermelhos, paralelos entre si.

— Mais letal e também mais valioso — advertiu Emlyn.

Camilo cochichou com uma careta:

— Essas lendas sobre sereias colecionarem homens são uma bobagem.

Uma mulher jovem, de cabelos pretos e compridos, aproximou-se de Emlyn e o abraçou por trás com carinho. Ela deu um sorriso misterioso e falou:

— Não são homens que elas colecionam, é a ganância deles.

Camilo olhou constrangido para a mulher.

— É um prazer vê-la, Samanta.

— Vejo que está deixando o meu capitão preocupado — respondeu ela, acariciando a barba de Emlyn.

— Ele acha que meu exército não consegue vencer os desafios dessa expedição.

— Seu exército é fabuloso — falou ela, admirando os homens. — Meu marido está preocupado é com você.

— Eu contava para ele que o meu guarda-costas traz uma salamandra no braço — cochichou ele, orgulhoso.

Samanta sorriu, mostrando-se impressionada, e examinou o guerreiro de perto.

— Então pode mesmo usar o fogo da salamandra? — perguntou ela.

O rapaz assentiu com um brilho nos olhos.

— E não teme as sereias?

— Eu já disse — Camilo se apressou em dizer. — Sereias são apenas lendas!

— Tanto quanto as salamandras — Emlyn respondeu, com a expressão preocupada, apontando para o braço do guerreiro.

Samanta despediu-se com um aceno, convidando-os a embarcar:

— Zarpamos em meia hora!

O Correnteza partiu logo após o sol nascer e navegaram por dois dias até águas mais profundas. Na segunda noite de viagem, a tripulação festejava no porão, esvaziando os tonéis de vinho trazidos por Camilo. Do convés, Emlyn os ouvia conversando e rindo embriagados.

A lua despiu-se das nuvens para cobrir o mar com um véu prateado que, subitamente, franziu-se sobre a maré agitada. Um baque seco fez o casco do navio ressonar e as vozes no porão silenciaram. Alguns soldados subiram ao convés e Emlyn ordenou que ajustassem as velas.  

— Não há sinal de tempestade — ele gritou do leme. 

De repente, sentiram outra batida no casco; e depois outra. Camilo surgiu no convés e gritou:

— Por que estamos batendo em pedras? 

— Não há pedras nessas águas! — respondeu Emlyn.

Novamente, sentiram o barco estremecer. Um marujo gritou apontando para o mar ao observar um rastro de luz debaixo d’água. Foi quando ouviram um grito gutural vindo de lá.

— Que diabos, não pode ser — murmurou Camilo.

Diante da proa, uma enorme serpente marinha saiu das águas, com escamas que brilhavam em tons de verde e azul conforme se mexia. A cabeça lembrava a de um lagarto, mas seus olhos eram grandes e guardavam uma expressão ansiosa como se estivessem famintos há décadas. A boca da serpente exibia dezenas de carreiras de dentes afiados e amarelados, mas o que mais chamava atenção eram as línguas. Mexendo sem parar, pareciam chicotes finos e compridos, com pontas em formato de seta. Dançavam no ar e sibilavam, com movimentos harmoniosos, quase hipnotizantes. Mexiam-se também os tentáculos coloridos, semelhantes aos das medusas e anêmonas-do-mar, que formavam a juba na cabeça do monstro. 

A serpente olhou para Camilo, desejosa, e deu um grito estridente com a boca escancarada, que obrigou todos a tamparem seus ouvidos. Ela agarrou a balaustrada do Correnteza e se atirou para devorar o magistrado, mas uma lança incandescente a fisgou no lado. O braço do guarda-costas de Camilo estava aceso em chamas púrpuras e ele atirou a segunda lança que trazia. A serpente se contorceu com o fogo incansável da salamandra devorando-lhe as escamas. Quando tentou abocanhar o guerreiro, destruiu o assoalho do navio e o fogo se alastrou.

A serpente voltou a mergulhar no mar, mas não tardou a ressurgir, gritando. Ela se atirou no navio e partiu o mastro. O guarda-costas sacou a espada para defender Camilo e viu Samanta surgir do porão, trazendo uma lança de aço.

— Jogue-me a lança! — ele gritou para ela.

Samanta foi até ele, mas ao invés de lhe dar a arma, rasgou-lhe o torso e o atirou no mar.

Camilo a encarou com os olhos suplicantes, paralisado, enquanto ouvia a serpente devorando o guerreiro. O Correnteza começava a afundar, despedaçando-se, mas Samanta estava indiferente. Friamente, ela trespassou a barriga do magistrado com a lança e o arrastou até jogá-lo para a serpente. 

O oceano consumiu as chamas. A noite devorou os gritos. Quando amanheceu, Samanta despertou na praia, sentindo as ondas lhe acariciando o corpo. Ela se levantou e arrepiou de frio com a brisa do mar. Viu os detritos do naufrágio por toda parte e respirou fundo, apertando o punho com firmeza.

— Deu-me duas almas valiosas — falou uma voz feminina atrás dela. 

Samanta se virou e viu uma jovem nua, com o olhar profundo como o oceano e a pele marcada por queimaduras.

— Peça dois prêmios e lhe concederei.

Sem hesitar, Samanta pediu:

— O meu Emlyn… e o seu poder.

Com uma expressão curiosa, a sereia indagou:

— Por que quer o meu poder se já é capaz de destruir um exército de homens. 

— Destruí-los é fácil. Difícil é mudar a forma como pensam. 

A sereia assentiu, convencida, foi até Samanta e a beijou suavemente nos lábios. Depois, mergulhou sem dizer mais nada. Satisfeita, Samanta sentiu sua língua arder e o mar tocar seu tornozelo, trazendo o corpo afogado, porém ainda vivo, de Emlyn.

◼︎

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